Palavra de Coelho
Sunday, June 04, 2006
Quando penso que já nada me pode surpreender na burocracia portuguesa, eis que surge uma novidade... Agora tenho o meu subsídio de arrendamento suspenso porque me falta uma declaração da Junta de Freguesia a atestar que vivo sozinha. Por momentos, pensei que iria ser submetida a algo pidesco como vir uma comissão cá a casa vasculhar se encontrava cuecas que não fossem o meu número, escovas de dentes a mais ou sapatos que me deixassem os pés a boiar. Mas não. Não passa de um papel carimbado e assinado pelo senhor secretário da junta. Afinal o que prova isto? É só mais um papelito para chatear e gastar um euro.
Serenidade na prateleira
Fui à Feira do Livro e entre aquisições como um Nabokov, um Faulkner e um Ishiguro, trouxe "Serenidade", de David Kundtz. A ideia era poder ir buscar algum equilíbrio no meio do caos que estão a ser estes meses. Mas entre jornais que tenho mesmo de ler e apontamentos que não posso deixar de estudar, o livrito permanece alinhado na estante. Ora, assim, não me está a ajudar muito... terei de tentar yoga, ou um "panching bag", ou qualquer outra coisa...
Thursday, June 01, 2006
Espírito muito nublado
Queria que os meus passos fossem vagarosos. Que as manhãs abrissem para mim com o odor da terra molhada para eu enterrar-lhe as unhas dos pés e fazer da poeira o mais gracioso verniz. Queria ver o meu pulso nu, sem o tempo a fazer papel de soberano. Queria mesmo correr livre e apaixonada e arranhar-me na vegetação mais hostil. Queria que a cólera, a ira, a aversão ao tudo, dessem lugar à serenidade. Que o mundo fosse realmente mundo. Que a genuinidade fosse mesmo genuína. E que o meu sorriso seja mesmo sorridente.
Thursday, May 18, 2006
Elogio do mundano
A ilusão da existência de um qualquer deus ofusca o olhar da humanidade, enleia-lhe as pernas ao andar, motiva a contenda, o choque. Que estúpido é o Homem por não se limitar a crer no corpóreo, no material, no mundano. Mas não deixa de ser compreensível. Algures no tempo ouvia numa rádio, dessas dominadas por seitas chulas que se fazem passar por igrejas sérias e altruístas: "Não duvide. A dúvida é a raiz do problema. Limite-se a crer." Ora aí está a fórmula magistral para se conquistar algo semelhante à felicidade. Os que tropeçam na dúvida - como eu - e não crêem - como eu - conquistam um bolo que desde o recheio às camadas de base se compõe de problemas. Mesmo assim, não deixo de o dizer: queiram os problemáticos orgulhar-se da lucidez e queiram os felizes esconder-se na vergonha da cegueira.
Fulgor em palco

Depois de assistir ao primeiro acto de "À Espera de Godot", descobri Pedro Gil. O actor de 26 anos que veste a pele do decadente Lucky é absolutamente genial. Além da peça ser uma obra-prima e de todo o elenco ser irrepreensível, vale a pena ir ao CCB neste fim-de-semana só para vê-lo representar.
Frequentou o Curso de Formação de Actores/Encenadores na Escola Superior de Teatro; Cinema e Full Time Acting Program no The Lee Strasberg Theatre Institute em Nova Iorque; Seminário Jovens Encenadores (Ministério da Cultura - IPAE/Teatro D. Maria II). Curso de encenação de Teatro na Fundação Calouste Gulbenkian (Programa Criatividade e Criação Artística). Estudou cinema, guionismo e vídeo. Criador, assistente de encenação e realização, e actor profissional desde 1999, entre outros trabalhou com: P. Saavedra, Mónica Calle, Miguel Loureiro, Artistas Unidos, João Brites (Teatro o Bando),
João Ricardo, Pedro Carmo (Teatro Focus), Jorge de Andrade e Rafaela Santos.Enquanto director artístico do Barba Azul – estrutura de criação teatral – criou a performance Alvo Branco (2004), e o espectáculo Execução Pública. Em Junho de 2005 criou o espectáculo Ensaio do Auto-Conhecimento para o CAM numa produção da Fundação Calouste Gulbenkian.
Wednesday, May 10, 2006
À Espera de Godot
De Samuel Beckett
Pelo Teatro Meridional
De 18 a 22 de Maio de 2006
Dias 18, 19, 20 e 22 à 21h00 Dia 21 às 17h00
Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém
SINOPSE
“Uma estrada no campo. Uma árvore. Ao anoitecer.” No que se tornou o cenário mais célebre do teatro contemporâneo Didi e Gogo aguardam em dois actos a vinda de um incerto Godot que Beckett sempre se recusou a identificar com a divindade, para realçar, talvez, não a finalidade da espera, mas o que se produz enquanto ela decorre. Logo na sua estreia, em 1952, foi perceptível a verdadeira dimensão de um texto que, à superfície, tem tanto de parábola bíblica como de farsa clownesca, mas que o tempo se encarregou de transformar na mais poderosa fábula do nosso tempo.
Pelo Teatro Meridional
De 18 a 22 de Maio de 2006
Dias 18, 19, 20 e 22 à 21h00 Dia 21 às 17h00
Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém
SINOPSE
“Uma estrada no campo. Uma árvore. Ao anoitecer.” No que se tornou o cenário mais célebre do teatro contemporâneo Didi e Gogo aguardam em dois actos a vinda de um incerto Godot que Beckett sempre se recusou a identificar com a divindade, para realçar, talvez, não a finalidade da espera, mas o que se produz enquanto ela decorre. Logo na sua estreia, em 1952, foi perceptível a verdadeira dimensão de um texto que, à superfície, tem tanto de parábola bíblica como de farsa clownesca, mas que o tempo se encarregou de transformar na mais poderosa fábula do nosso tempo.
Sunday, May 07, 2006
Desculpa Lagos

Estou de regresso à vida urbana. Larguei aquele mar imenso para voltar a esta cidade, onde o chão está à distância de três andares sem elevador. Onde a Bia tem de sair com trela para não ser surpreendida por nenhum carro. Onde o azul do mar está longe. Sempre amei Lisboa. E continuo a amá-la. Mas, cada vez mais, Lagos convence e seduz para um dia lá ficar. Um dos grandes motivos que me fazia ser instransigente perante a ideia de sair da capital é a falta de oferta cultural. Mas, imagine-se, Lagos parece querer-me conquistar à força. Numa das manhãs de praia, esplanada e jornais, li que iria estar em exibição o "De tanto bater o meu coração parou" do Jacques Audiard. Lá fomos, na quarta-feira, à biblioteca lacobrigense. Descobri, então, que a iniciativa se chama "Quartas de Cinema" e traz todas as semanas longas-metragens provenientes do circuito menos comercial. Este mês de Maio é dedicado ao cinema francês. Afinal, aquela sessão acabou por ter muito mais qualidade que todas as que já assisti em Lisboa. Duas das pessoas da organização falaram um pouco antes do filme. Sobre o realizador, a narrativa, a fotografia, etc. E no final do filme os espectadores tiveram oportunidade de conversar sobre o que viram. E as ideias que se trocaram foram muito interessantes. Tudo isto sem ter de abrir a carteira. Tive de me render aos encantos de Lagos. Afinal existe muito mais do que eu podia imaginar. Devo um pedido de desculpas à cidade e aos lacobrigenses por ter sido dominada pelo preconceito lisboeta de que todo o país à volta é paisagem.
Friday, April 28, 2006
Coelho na toca
O dia de hoje não está a correr como o previsto. Mas está a saber-me muito bem. Era suposto já estar a caminho de Lagos, mas a viagem terá de ser adiada até à noite ou mesmo até amanhã. Limito-me a estar em casa. Saí unicamente para ir almoçar à Aula Magna com um amigo com quem estava chateada há dois anos. Comprei o Courrier Internacional, um maço de cigarros e regressei a casa. À minha toca. Pensei: tenho de arranjar algo para ocupar o dia. Mas logo me arrependi. Afinal, gosto de gozar os prazeres do meu "refúgio", algo que se transformou numa raridade. A rua está silenciosa e apenas ouço os pardais e o fado do senhor António da oficina. Leio o jornal, fumo um cigarro, revolvo as minhas coisas para me livrar das que não me são indispensáveis à vida. Quebro o silêncio com a minha música e danço sem limites. Observo as minhas plantas e flores, retiro-lhes as folhas secas e trato-as como se fossem crianças indefesas. Gosto de estar na toca. O único espaço concebido por mim, à minha imagem, onde sou soberana.
Thursday, April 27, 2006
Nova imagem do blog escrita casual.

O blog escrita casual. do Gustavo Sampaio tem um novo cabeçalho. Se antes esta página já primava pelo bom gosto gráfico, conseguiu melhorar ainda mais. Aconselho todos a visitarem o blog, não só pela imagem, mas pelos conteúdos interessantes que ela alberga. Parabéns Gustavo.
www.escritacasual.blogspot.com
Diva peruana amanhã em Lisboa

Para quem tiver disponibilidade, amanhã pode (e deve) ir à Culturgest assistir ao concerto de Susana Baca. Os bilhetes custam 15 euros, apenas 5 para jovens até aos 30 anos. Sigam o meu conselho e terão uma surpresa agradável como a que tive há dois anos quando, sem saber nada da cantora, vi uma actuação na Aula Magna. Foi fabuloso. A diva peruana regressa a Portugal para apresentar o mais recente álbum, "Travesías", gravado na companhia de Marc Ribot, Sergio Valdeos e Juan Medrano Cotito.
Culturgest - R. Arco do Cego, Ed. CGD
Amanhã, 21h30
TELEFONE
217905155
Preços: 15 euros
5 euros para menores de 30 anos
O meu balão de oxigénio

Esta coisa de ter um blog parece paradoxal e patológica. O meu trabalho é escrever. Faço-o de manhã à noite. E agora, quando tenho cinco minutos, interrompo a escrita do jornal para escrever "coisas sem importância" que serão lidas por poucos. Mas para os que se lembraram de questionar isto, apresento-lhes uma explicação. O processo de escrita num jornal é altamente condicionado. A notícia obedece a rígidas regras e é como uma fórmula que depois de aprendida parece monótona. Valha-nos as reportagens e outros géneros jornalísticos que nos permitem outras "brincadeiras" com a palavra. Mas como agora estou limitada à notícia - embora seja viciada no que faço -, sabe muito bem ter um espaço onde possa dar asas aos meus devaneios. Onde posso escrever na primeira pessoa e dizer barbaridades, sem estar sujeita a apreciação de editor ou leitor.
Qualquer dia não regresso

Já só faltam umas míseras horas para estar oficialmente de férias. A minha mente já só tem espaço para a tonalidade do mar de Lagos. Os meus ouvidos já só ouvem a pronúncia algarvia. O meu paladar já saboreia os manjares lacobrigenses. As minha gargalhadas já só reflectem as dos amigos que lá me esperam. As minhas manhãs esperam ansiosas pelos livros e jornais lidos à beira-mar.
Coisas mundanas que nos distinguem
Hoje falava-se pelo corredor sobre futebol e depilação. Eles referiam-se ao "frango" devido a "um balão alto", elas discutiam as "virilhas aprofundadas". De cada lado, as expressões de enleio denunciavam os mundanismos que separam os machos das fêmeas.
Humor canadiano defende portugueses

Rick Mercer é um dos mais conhecidos humoristas canadianos. A propósito da deportação dos portugueses, promovida pelo governo do Canadá, Mercer fez um "sketch", no qual ridiculariza a forma como os nossos conterrâneos foram tratados. É realmente divertido. Mercer acusa o poder político de ter expulso os imigrantes porque trabalhavam na construção, tinham filhos na escola, jogavam futebol e iam à missa ao domingo. Um exercício de ironia que vale a pena assistir.
(Para ver o vídeo, «Deportation», procurar na secção: «Week of April 11, 2006». É o 23º vídeo a contar de cima. Clicar aqui)
